SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE UMA IGREJA - Ernesto Esteves
II PARTE
Capítulo IV
A SEMENTE A GERMINAR
Passado que estava o triste episódio sofrido durante aquelas férias, felizmente com um final feliz, poderia concluir-se que estava encerrado o processo. Contudo, assim não aconteceu. As palavras daquele Ramiro ecoavam agora na mente do meu pai. O milagre patenteado, aliado às palavras daquele insistente “pregador” não tinham passado como vento que sopra e não se sente mais. Não, agora era o meu pai que queria indagar o que era que se tinha passado.
Todas as palavras que haviam sido proferidas, com base na Bíblia, batiam fortemente no coração do meu pai. A semente havia sido semeada e o seu processo natural de desenvolvimento já tinha começado. Germinava agora a vontade de uma explicação razoável e lógica para aquilo que tinha acontecido. Quanto à minha mãe, essa estava definitivamente convertida, embora ao princípio ainda subsistisse o tradicionalismo religioso de tantos anos.
Mas, no que concerne ao meu pai, racionalista convicto, tudo tem uma explicação fundamentada numa lógica terrena. O “sobrenatural” era para os ignorantes... para ele tinha de haver mais conteúdo para o que acontecera. Todavia, os factos estavam diante dos olhos e, quanto a isso, não havia dúvidas. Havia, sim, que provar porquê e como.
Então, bem ao seu jeito, começou por procurar encontrar nesse livro tão falado pelo Ramiro, a Bíblia, e começar a lê-la, confirmando pela sua leitura aquilo que já ouvira do ousado visitante na casa dos meus tios - o tal Ramiro.
De tal forma a leitura da Bíblia amoleceu o seu coração, que, quando a minha tia Damásia nos visitava - e isto acontecia semanalmente - as perguntas saiam em cascata, mas as convincentes e bem alicerçadas palavras da minha tia, fruto do alimento espiritual que tinha durante a semana, acabaram por converter um homem duro de coração e profundamente racionalista num crente convicto, confirmando ele próprio cada palavra dita agora pela minha tia com a unção do Espírito Santo.
Havia, pois, nascido mais uma alma para as fileiras do Reino de Deus. Embora débil, mas estava a dar os seus primeiros passos. E a cada dia se firmava cada vez mais, num processo evolutivo e natural deste Reino, dos que são “Chamados pelo seu Decreto”.
Poderíamos pensar que este seria um final feliz para tão singela história, mas não.
Os meus pais assistiam aos cultos em Lisboa, quando lhes era possível, embora o alimento espiritual viesse todas as semanas pela boca da minha tia, o que mantia a chama acesa, e estas pequenas plantas do jardim de Deus iam tornando forma mais robusta, embora contidamente tímidas para se exporem, tanto mais que o contexto sócio-político que se vivia na altura era extremamente adverso.