Cap.4
"A semente a germinar"

Cap.5
"O Azevedo"

Cap.6
"Perseguição"

Cap.7
"A igreja clandestina"

Cap.8
"Recuperando forças"

Cap.9
"À procura de novas instalações"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE UMA IGREJA
- Ernesto Esteves

Capítulo V

  O AZEVEDO

Profissionalmente o meu pai era funcionário do Estado, exercendo a sua actividade nos “Serviços Municipalizados” da Câmara Municipal de Loures. O seu hobby era particularmente vivido com a paixão pelas correntes eléctricas de baixas tensões. E de tal forma o fazia, que aplicava os seus conhecimentos na reparação de rádios (TSF - telefonia sem fios), e, dado o seu domínio no assunto, começou a ser procurado nas suas horas de folga para a reparação de aparelhos de rádio. Alguns colegas alcunharam-no até de “galenas”, porque com um simples transístor, bobinas e com pouco mais ele conseguia ouvir as emissões de rádio existentes naquela altura. A este pequeno aparelho o meu pai dava o nome de “galena”, divulgando os seus feitos nesta área pelos seus colegas de trabalho, de tal forma que lhe atribuíram o cognome acima referido.

Não havia rádio que ele não conseguisse reparar por mais complexo que fosse, e isso dava-lhe um enorme prazer.

Certo dia apareceu-lhe um desses trabalhos de conserto de rádio que tinha um problema qualquer que levou o seu proprietário a confiar nas suas mãos para a solução do problema. Nunca antes o meu pai tinha tido tantas dificuldades em solucionar tamanho problema. Isso trazia-o preocupado, porque era, por natureza, homem de enfrentar desafios e de não voltar costas às dificuldades, fossem quais fossem. E de tal forma isso o incomodava que começou por desabafar com os seus colegas, pois havia quem tivesse conhecimentos de electrotecnia, mas, nem assim conseguia resolver o problema do tal rádio, até que alguém o lembrou de que havia um colega que também tinha por hobby a reparação de rádios e talvez a troca de conhecimentos pudesse vir a sortir algum efeito. Foi desta forma que o meu pai se aproximou mais de um tal Azevedo. E, palavra puxa palavra, lá resolveram encontrarem-se em casa desse Azevedo para verificarem o aparelho na bancada de trabalho.

Curiosamente, quando o aparelho estava já em cima da bancada, os olhos do meu pai passaram em revista pelos livros que estavam junto da mesma e reparou em dois que lhe eram familiares: uma Bíblia e um hinário. Surpreso, o meu pai exclamou: -“Eu conheço estes dois livros”. Como é que conhece e não conhece, lá verificaram que ambos, colegas de trabalho, eram crentes sem se conhecerem como tal.

“Deus escreve direito por linhas tortas”, como diz o povo, e ainda hoje não se sabe qual era o problema do rádio... mas ficou em perfeitas condições!

A partir daquele dia tudo mudou na vida das duas famílias. Agora já eram duas em Loures, que comungavam da mesma fé e apoiavam-se uma à outra. Começaram então a falar de Jesus e da Salvação que há no Seu sacrifício redentor a todos aqueles que lhes estavam próximos e a fazerem reuniões na humilde casa do Azevedo. E de tal forma o Evangelho crescia nos corações dos ouvintes, que se convertiam ao Senhor Jesus Cristo, entregando nas Suas mãos as suas vidas. Nas mãos Daquele que tudo pode fazer. O resultado estava à vista, até que chegaram os dias da tribulação.

Certa noite, a Polícia foi chamada a intervir para por em sossego as “Festas” que se faziam em casa do Azevedo. Estávamos, então, em pleno Culto a Deus. Peremptoriamente os policiais disseram que não era permitido tanta gente na mesma casa. E indagaram mais: -“O que é que estão a fazer aqui?” -“Estamos a fazer uma festa”, responderam timidamente os crentes (há que ter em conta que na altura estávamos em pleno “fascismo” e num período da história em que tudo era “censurado” e também numa época em que a liberdade de culto era concedida apenas para a fé aceite pelo Estado, ou seja, a dita Católica Apostólica Romana). Pois bem, disseram os policiais, não é permitido fazerem qualquer festa em casas particulares com mais de 20 pessoas, senão é considerada reunião política clandestina.

Vinte pessoas?! a casa estava a abarrotar... como é que seria possível fazer uma Festa a Jesus, o Salvador do Mundo, só com vinte pessoas? e os outros?

Os mais velhos, nomeadamente o meu pai e o Azevedo, começaram logo no dia seguinte na busca de um lugar para nos podermos reunir sem a limitação das vinte pessoas. Estava a ficar complicado...! Mas, por outro lado, estava diante dos nossos olhos um novo desafio. A fé agora já mais firme não tinha motivos para recuar.

Deus estava no controlo e Ele providenciaria tudo, disso estávamos todos certos. Sem menos esperarmos, lá estava uma garagem pronta a ser utilizada. Será que poderíamos transformá-la num salão de Culto? a “Festa” tinha de continuar, era impreterível!

Com alguma dificuldade, como era natural para a época, mas lá se chegou a acordo.

O primeiro Culto, o “Culto de Inauguração” da Igreja de Jesus em Loures, tinha lugar agora numa garagem transformada... nem parecia uma garagem... que Bênção!

O povo do Senhor ganhou novo alento e o primeiro culto foi uma “Festa de Arromba”... os ouvintes encheram totalmente aquele espaço e alguns, não poucos, ficaram do lado de fora para ouvirem o que se passava do lado de dentro da sala. Foi, efectivamente, um dia de exuberante alegria! Tínhamos, finalmente, e pela primeira vez, um espaço próprio para adorar a Deus.