Cap.4
"A semente a germinar"

Cap.5
"O Azevedo"

Cap.6
"Perseguição"

Cap.7
"A igreja clandestina"

Cap.8
"Recuperando forças"

Cap.9
"À procura de novas instalações"

 

 

 

 

 

 

 


SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE UMA IGREJA
- Ernesto Esteves

Capítulo VII

    A IGREJA CLANDESTINA

Na manhã do domingo seguinte, as crianças que assistiam assiduamente à “Escola Dominical” vieram até à casa de meus pais, pois queriam saber onde era agora a dita Escola Dominical?

O meu pai, com muita insistência da minha mãe, lá se levantou da cama para acalentar aquelas crianças e cantarem um cântico, mas muito baixinho - o Presidente da Câmara vivia no nosso prédio e, depois dos acontecimentos daquela semana, nem um sussurro poderia chegar ao andar onde ele morava - então, lá se cantou um cântico para crianças e contou-se uma pequena história bíblica.

Foi feito com muito custo, é verdade, pois estávamos abalados. Já não tínhamos mais a nossa querida Igreja... e quantas lembranças estavam gravadas em nossas mentes dos bons tempos vividos até ali. Mas, essas lembranças, pertenciam ao passado. A Igreja estava a sofrer um dos mais duros golpes. Vivíamos como formigueiro esgaravatado, cada um procurando à toa o caminho, mas sem rumo certo.

Alvitraram-se algumas soluções, mas em todas elas se encontrava um problema para a sua eficácia.

Houve mesmo quem propusesse que se fizessem os cultos em casa do meu pai. Talvez por possuir particularidades inatas de liderança, mas foi imediatamente colocado de lado por ele próprio, pois vivíamos, como já referi, no mesmo prédio em que morava o Presidente da Câmara. Nem pensar!!

O meu pai era funcionário sob a tutela do Presidente e isso poderia ser encarado como provocação. Essa ideia estava definitivamente posta de lado. Estaria o seu emprego em jogo e, consequentemente, a subsistência da sua família ameaçada.

Racionalmente ele tinha toda a razão.

Alguém, então, alvitrou a hipótese de se fazerem reuniões em casas de diferentes crentes e em locais longe um dos outros, para, provavelmente, dispersarem as atenções dos curiosos indagadores onde é que havia reuniões clandestinas dos “pestantes” ( sim, “pestantes”, não me enganei. Era assim que éramos conhecidos. A palavra “protestante” era coisa que nunca se tinha ouvido nesta pacata vila de Loures).