Cap.4
"A semente a germinar"

Cap.5
"O Azevedo"

Cap.6
"Perseguição"

Cap.7
"A igreja clandestina"

Cap.8
"Recuperando forç
as"

Cap.9
"À procura de novas instalações"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE UMA IGREJA
- Ernesto Esteves


Capítulo VIII

RECUPERANDO FORÇAS


Esta última solução, a de se reunirem em pontos diferentes, foi bem recebida por todos e retomámos o ritmo dos cultos.

Inicialmente muito tímidos, como é de calcular, mas a pouco e pouco o povo de Deus foi-se agrupando, qual exército desbaratado que se reorganiza para a batalha. E foi, na verdade, uma tremenda guerra espiritual.

A determinada altura alguém voltou a propor novamente que os cultos de domingo se fizessem em casa dos meus pais, por ser um ponto mais central, o que facilitaria substancialmente a vinda de visitas para assistirem ao culto e ouvirem da voz de um pregador mais experiente a “mensagem da cruz”.

Muito tímido, como é óbvio, e depois de alguma insistência dos outros crentes, o meu pai lá concordou, mas com uma condição: Tudo era feito em pleno segredo, os cânticos seriam cantados com muito pouca intensidade e as pregações sem exuberâncias próprias daquilo a que estávamos habituados quando estávamos na espoliada Igreja, ou seja, à boa maneira “pentecostal”. E ponto final! Se assim fosse, tudo estaria dentro dos parâmetros aceitáveis. De outro modo, nem pensar.

Todos concordaram, reconhecendo a complexidade da questão e não queriam colocar um dos seus irmãos em Cristo em qualquer apuro desagradável. Para mal já bastava a perseguição que se vivia.

Então, ultrapassadas as condições propostas, os cultos de domingo à tarde para os adultos, bem como a “Escola Dominical” aos domingos de manhã para as crianças passaram a ser em casa dos meus pais.

A princípio todos cumpriram o prometido, mas a concorrência aos cultos era de tal forma que, inicialmente feitos na cozinha da nossa casa, passou a ser pequena para tanta gente, pelo que passou a ocupar-se também uma grande marquise contígua àquela. Depois, como o espaço já se tornava pequeno, segui-se-lhe o hall, depois a sala de jantar... enfim, lotação esgotada!

Os pastores convidados para celebrarem o culto ao Senhor ensinavam o povo na Palavra de Deus, pregações que, ungidas pelo Espírito Santo, levaram muita gente a aceitar o Senhor Jesus como seu Salvador. E de tal forma os acontecimentos se iam desenrolando que foram-se esquecendo das regras previamente estabelecidas e, a páginas tantas, até o meu pai perdeu o medo, abrindo-se a porta que dava acesso ao quintal em dias de maior calor. Assim, pelos planos de Deus, já não era somente os que estavam em minha casa que ouviam os cânticos e a Palavra do Senhor, mas também os vizinhos que estavam mais próximos.

Nunca a “Igreja” havia crescido proporcionalmente tanto em tão pouco tempo e sob as condições adversas que lhes estavam a ser impostas.

Tornava-se, pois, urgente um espaço maior, onde o povo pudesse celebrar ao Senhor sem limitações de espaço.

Todos começaram a orar por esse espaço, indiferentes à perseguição... Deus proveria!

O exército de Deus estava reorganizado e pronto para a luta.

A minha mãe começou a ser questionada pelas vizinhas do que se passava ali aos domingos e, vai daí, começou o seu ministério de evangelista devido às circunstâncias. O horário dos cultos dos domingos à tarde já era do conhecimento das minhas vizinhas. Essa hora passou a ser sagrada para elas também. Pelas varandas e janelas debruçavam-se para ouvirem o que se passava na casa da Carlota. A curiosidade de saber mais acerca de Jesus leva-as a fazerem-lhe perguntas. Em gíria poderíamos dizer: “estava a banca montada” e lá vai Evangelho para a frente...

Surgiu, então, uma Igreja paralela só de mulheres cujos maridos as proibiam de vir à casa da Carlota para assistirem aos cultos.

Nascera um outro grupo de crentes: “as proibidas de virem aos cultos”. Em células, ora em casa de uma, ora em casa de outra, todos os dias estas mulheres, lideradas pela minha mãe, liam a palavra do Senhor e oravam.

Dessa “Igreja de Mulheres”, ainda hoje estão na actual Igreja as filhas, filhos, netos... dessas abençoadas mulheres que ousaram enfrentar o desafio de se juntarem diariamente para orarem e ouvirem o ensino da palavra de Deus. Jesus para elas era tão importante, como era para aqueles que iam aos domingos à tarde à casa dos meus pais.